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Reflexos

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Na sequência do artigo Desculpem lá, o meu Português não é grande coisa!, de 15/11/10, recebi várias reacções de caboverdianos que estão genuinamente preocupados com a situação da Língua Portuguesa em Cabo Verde e de portugueses, que gostariam de a compreender. Abordando a questão de ângulos diversos, todos os comentaristas caboverdianos estão cientes da leveza com que esta língua é tratada na escola. As perguntas e observações foram muitas e pertinentes. Tentarei, neste e em próximos artigos, dissecar os aspectos mais relevantes e, sobretudo, dar-lhes alguma ordem, para que a reflexão produtiva seja possível. Tenham em conta que a minha posição face ao assunto é meramente académica, impregnada da objectividade científica que pauta, por princípio e ética, tal posição. E ainda que a minha abordagem é do âmbito da Política Educativa, não me debruçando eu sobre quaisquer aspectos linguísticos subjacentes. Considerando que muitos dos meus leitores não são caboverdianos, começarei por dar explicações que, para os nacionais, seriam dispensáveis.

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 Um Pouco de História

A decisão de ter o Português como língua oficial foi tomada na decorrência da Independência de Cabo Verde, há 35 anos tão somente. Apesar de não ter ido levantar documentos que eventualmente a justifiquem, é fácil entender que duas razões estão na génese de tal opção.

A primeira tem a ver com o facto de o território ter sido antes gerido por um país que falava português, sendo que as elites intelectuais e políticas, nessa data, o dominavam perfeitamente. Aliás, isso é patente nas figuras mais antigas do meio caboverdiano de hoje, que tenho o privilégio de conhecer. Essas elites representam aqueles que atravessaram o sistema educativo em Cabo Verde e eventualmente obtiveram graus académicos, em grande parte em instituições em Portugal, nessa altura ainda metrópole. Tinha-se, pois, há poucos anos, uma sociedade cuja parte letrada falava e dominava o Português. Isto significa que toda a sociedade, tanto aqueles membros com mais escolaridade como aqueles com menos, estavam expostos à língua portuguesa e não lhe eram totalmente alheios. O Português era, então, falado em Cabo Verde.

A segunda razão liga-se com a inserção do novel país numa rede de países mais alargada que, como todos sabemos, forma uma ampla comunidade – que acabou por ser formalizada e oficializada como Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A importância política, económica e cultural, cada vez maior, de os países pertencerem a grupos internacionais com os quais têm afinidades, não só os torna mais fortes como lhes proporciona um suporte valioso para o seu desenvolvimento. Os países do planeta que possuem uma língua que mais ninguém fala têm-se preocupado em tornar os seus cidadãos bilingues, seja com o inglês seja com o Francês, por serem estas as línguas mais faladas nos fóruns internacionais. Veja-se, por exemplo, os Países Nórdicos, tal como a Suécia. Residi seis anos ali e nunca precisei de falar sueco.

A escolha de Cabo Verde pelo Português como língua oficial foi, pois, natural e esta só não foi tida como língua materna devido à existência do crioulo, que ao longo dos séculos, se foi unificando entre as nove ilhas habitadas até se tornar numa unidade linguística. É claro que aqui entram as variantes, que não são de todo desprezáveis, pois não se trata somente de sotaques diferentes, aliás como é referido pelo Governo na notícia de que falo a seguir.

O crioulo caboverdiano – hoje chamado língua caboverdiana pelos linguistas – é uma língua que se construiu a partir do Português, isto é, tendo esta língua como base, razão porque reteve o seu vocabulário, tendo-lhe aplicado uma construção diversa. É, pois, uma língua “derivada”, se quisermos, do Português, com o qual tem grandes afinidades e parecenças. Não temos, portanto, aqui, distinções profundas como, por exemplo, entre o Inglês e o Português, que têm muito pouco a ver uma com a outra.

O caboverdiano nasceu como uma língua de comunicação oral para o quotidiano e assim tem permanecido. Para além de alguns registos ocasionais na poesia, só muito recentemente na história da sua existência surgiu a preocupação de o passar à escrita e de, para isso, encontrar um alfabeto e uma grafia unificada. Assim, o alfabeto caboverdiano só foi oficialmente aprovado, pelo Conselho de Ministros, em Janeiro de 2009.

No Presente 

Por esta razão, e apesar de esta língua ser aquela que a maioria dos caboverdianos fala entre si no dia-a-dia, a sua forma escrita não foi ainda absorvida, de uma maneira uniforme, formal e sistemática, para que seja possível a sua escrita generalizada. Porém, assiste-se, no momento, a uma movimentação nesse sentido. Por exemplo, nota-se a preocupação de instituições que oferecem cursos de línguas de possibilitar pequenos cursos de Crioulo Caboverdiano, onde este é já tratado nas duas formas – oral e escrita. É também já habitual ver pequenos recados e notas trocadas em crioulo, artigos de jornal e até debates televisivos nessa língua. Existe, como é legítimo, um desejo dos caboverdianos de verem a sua língua materna elevada ao estatuto de língua escrita e, consequentemente, ensinada de uma maneira formal. Vários linguistas e estudiosos têm-se debruçado sobre esta questão, contribuindo com obras que vêm vindo paulatinamente reflectindo e enriquecendo o espólio da língua, não só sobre a língua em si (como Manuel Veiga), mas também usando-a nas suas produções, sobretudo culturais (como Tomé Varela).  

Com estes dados como ponto de partida, estamos agora em situação de abordar a questão da utilização do crioulo como língua de ensino, o que será tratado numa próxima vez.

 

 

 

 

 

 

Maria Catela

foto do autor

"A memória é a consciência inserida no tempo." Fernando Pessoa

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  • Claudemir

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  • João Sá

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