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Reflexos

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…dizia a Joceline, caboverdiana de Santo Antão, agora a estudar em Portugal, ao ser entrevistada pela apresentadora logo a seguir à sua prestação nos Ídolos de ontem à noite, 14 de Novembro. Isto, porque quis fazer uma frase mais completa e a estrutura não lhe saiu, tropeçou no meio e a apresentadora veio em seu auxílio.

Os Ídolos são vistos por milhares de pessoas, tanto em Portugal como por esse mundo fora. O Português é a língua oficial de Cabo Verde…

Já tem sido referido várias vezes naquele programa que a Joceline é caboverdiana, facto que é apresentado com alegria, como se de um país-irmão se tratasse e a concorrente fosse, nessa qualidade, muito bem-vinda. Pela reacção do público no auditório do espectáculo e pela atitude dos apresentadores, verifica-se que o facto gera, realmente, efusiva simpatia. E isto sem pensarmos na enorme comunidade caboverdiana residente em Portugal, que, certamente “torce” pela “sua representante”.

Trago a frase da Joceline a terreiro porque ela me tocou, já que lido todos os dias com um Português que “não é grande coisa” de muitos estudantes da sua idade, seus conterrâneos. Como ela, encontram-se no ensino superior, mas em Cabo Verde, e apresentam severas dificuldades no domínio da sua língua oficial, que é, afinal, a língua de ensino-aprendizagem.

Ora, no ensino superior, os conteúdos são – ou deveriam ser – abordados a níveis de abstracção mais elevados – por alguma razão se chama ensino “superior” – e as metodologias têm por base um grande manancial de material escrito. O estudo faz-se sobretudo a partir de livros, que, a este nível, apresentam textos mais teóricos, mais complexos e com um estilo mais literário. Tais textos requerem, portanto, um bom domínio da língua, para que seja possível aos estudantes a prática de interpretação, relação e análise, que são as actividades cognitivas por excelência no ensino superior.

Noto, entre os meus alunos, que o Português é apenas uma língua de recurso e só quando não podem mesmo fugir-lhe. Os estudantes fazem um enorme esforço ao lidar com essa língua, quer oralmente quer por escrito: oralmente, para seguir o professor e compreender o seu discurso ou para dialogar com ele durante a aula; por escrito, na leitura dos textos, sendo que as avaliações são também feitas em Português e os alunos não têm os conhecimentos suficientes para exprimir o seu pensamento. Atente-se que se trata de raciocínios mais complexos, que requerem, portanto, “mais língua” para poderem ser apresentados.

A Educação da dita “civilização ocidental”, a que pertencemos, herdou os princípios da paideia grega, que tinha como centro a palavra. Lembremo-nos dos sofistas e da importância do discurso e da argumentação na vida grega de então. Hoje, ainda que com um objectivo mais prático, os nossos sistemas educativos continuam a ter a palavra no seu centro – ou seja, a língua. Sem ela, não há transmissão e aquisição de conhecimentos. Sem ela, a nossa civilização, que defendemos e queremos que progrida, deixa de existir.

É, pois, urgente que algo seja feito para recolocar a língua no centro do ensino! 

 

4 comentários

De Trêza a 22.11.2010 às 07:01 pm

Há muitos países de língua oficial portuguesa onde a língua portuguesa é só isso: oficial. Não é natural porque não é utilizada no dia-a-dia. Tal como diz acontecer em Cabo Verde.

Eu questiono os meus botões... Fará sentido manter uma língua oficial por razões estratégicas quando a mesma não expressa a cultura de um povo? Será justo para com uma criança que a sua educação se faça numa língua estranha que ouve pela primeira vez quando começa a ir à escola? E não estará a frustração desse facto o grande peso do insucesso escolar nessas condições?

Tantas perguntas.... :)

De M.E.C. a 27.11.2010 às 07:00 pm

Perguntas pertinentes, essas e outras merecedoras de um debate público que tarda. Elas são curtas, mas as respostas longas e complexas. Porém, as decisões são do foro político. Este artigo teve numerosas reacções, sobretudo através do Facebook , que me puseram a pensar toda a semana... Preparo-me para continuar a escrever sobre o assunto e, assim, ir dando resposta ao que me perguntam. É só esperar mais um bocadinho - Pode ser?

De Trêza a 27.11.2010 às 10:36 pm

Se pode ser?
Hum.... está bem :-)

Brincadeirinha. Talvez por causa do espanto. Cada blog tem um ritmo próprio, a sua própria melodia. Esperar não afugenta quem procura os seus estudos. Leve o tempo que demorar, cá estaremos quando chegar.

Ah...

De Sandra a 10.12.2010 às 04:22 pm

Concordo com a Trêza, pois a língua não faz parte do nosso dia a dia. Ela é falada somente na escola, isto para aqueles que vão pra escola, e nas relações oficiais que muitas vezes fica com uma minoria. Muitos professores nem sabem a língua, no entanto, estão numa escola dando aulas de português. Se formos comparar com outros países que também tem a língua portuguesa como língua apenas oficial, também veremos os mesmos erros. Até mesmo no Brasil onde a língua é materna, tem erros parecidos e muitas vezes maiores, ou seja, pessoas que falam o Português no dia a dia e mesmo assim não sabem falar a língua gramaticalmente correta. Acontece também em Portugal.
Ou seja, é muito complexo e deveras é preciso pensar muito sobre isso. O bom é que falando gramaticalmente errado ou não, todos nos entendemos e na hora da morte é isso que nos interessa :)
abçs

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Maria Catela

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"A memória é a consciência inserida no tempo." Fernando Pessoa

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  • Claudemir

    Olá ProfessoraGostaria de enviar-te um e-mail com ...

  • João Sá

    Bom dia :)O blog está em destaque na homepage dos ...

  • M.E.C.

    Olá! Que bom - toda a divulgação é uma ajudinha......