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Reflexos

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Entre gerações existe sempre um choque, que o grupo dos da geração mais velha tem dificuldade em aceitar. “No meu tempo, os jovens faziam assim…” Se tal é verdade entre pais e filhos, torna-se quiçá mais premente entre professores e alunos. E parece que se trata de uma batalha, uns de um lado, os outros do outro, como inimigos.

Na verdade, a origem de tais diferenças está na evolução das sociedades – de facto, não se vive hoje como há 20 anos, que é o período de se formar uma nova geração. A tecnologia modificou a maneira de viver; com ela os valores e, até, os direitos e deveres dos cidadãos mudaram. Há décadas da história dos povos em que essas diferenças são mais marcantes, sobretudo quando acompanhadas por modificações políticas, como foi, entre tantas outras, a implantação da República, o sufrágio universal a incluir as mulheres, a vulgarização da televisão e do computador. Se pensarem bem, ainda se lembram, da vivência ou dos livros e filmes, de como era a vida familiar e social no tempo dos reis, mas, mais próximo de nós, de como era a situação da mulher antes de esta ter conquistado direitos iguais ao do homem ou, mesmo, de como era um serão quando ainda não havia televisão ou de como era trabalhar sem acesso ao computador. Quase impensável, não é?

Alterações tão drásticas na maneira de viver não poderiam senão provocar grandes modificações no pensamento colectivo, com a consequente mudança de interesses da camada jovem, esta precisamente contemporânea dessas alterações.

Ludwig van Beethoven, compositor alemão da viragem do Séc. XVIII (Bona, 1770 - Viena, 1827)

(Foto do Google)

Surgiu há dias uma notícia sobre a “ignorância” dos jovens de hoje nos Estados Unidos da América, evidenciada através de um estudo de dois professores.

Dizem eles que os “estudantes americanos acham que Beethoven é um cachorro” – porque houve um filme americano em que tal acontecia, tendo os jovens “perdido” a referência de que Beethoven é um grande compositor.

É evidente que, se tal acontece, é porque a escola (e a família) não estão a prestar a devida atenção à história e à cultura – porque música é cultura! Ou seja, hoje em dia as preocupações, os interesses da nova geração são o “hoje” e não o que passou. Aliás, os filmes americanos, com a sua superficialidade e ritmo alucinante, são os primeiros a induzir os seus espectadores a viver com intensidade o momento presente, parecendo que não houve ontem nem haverá amanhã – o passado não interessa e não se sabe o que nos trará o futuro, o melhor é não contar com ele!

Os Estados Unidos da América são um país novo, de tal modo que consideram qualquer coisa com duzentos anos (a sua idade) de grande antiguidade! E talvez por isso, por ser um país novo, precisou de se impor no presente. A verdade é que a história que é estudada na escola é centrada no próprio país e os adultos de hoje e mesmo de gerações anteriores são perfeitamente ignorantes da História do resto do mundo – a não ser que tenha que ver com a História da América ou a sua política actual de intervenção mundial. Constatei isto pessoalmente no período em que residi nos Estados Unidos da América e as perguntas que pessoas, que, pela sua função, no meu país teriam a obrigação de ter uma alargada cultura geral, me dirigiram sobre o meu país, Portugal, deixaram-me, nos meus vinte e tal aninhos, completamente perplexa. Que Portugal era uma província espanhola, que espanto era falar-se lá português, que então deviam ter sido os brasileiros a povoar e “descobrir” Portugal e assim por diante. Perguntava-me eu, então, que tipo de História universal seria dada nas escolas…

Por isso, não me surpreendem os resultados do estudo que agora vieram a lume. O que me surpreende é que os americanos, eles próprios, se admirem!

Os americanos, porém, não estão sozinhos, pois a evolução das sociedades, como se disse atrás, tem sido retirar à História o lugar importante que tinha nos programas escolares. De tal maneira que, nos sistemas de ensino actuais, nem todas as vias de estudo têm História, logo a partir de anos de escolaridade ainda baixos. E minimizar o ensino das artes, nomeadamente da música, que saiu completamente dos curricula. É, por isso, fácil concluir que os jovens, frutos de tal ensino, não terão nunca uma alargada cultura geral: não saberão a História de outros povos e do seu planeta nem apreciarão uma bela sinfonia de Beethoven!

Maria Catela

foto do autor

"A memória é a consciência inserida no tempo." Fernando Pessoa

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  • Claudemir

    Olá ProfessoraGostaria de enviar-te um e-mail com ...

  • João Sá

    Bom dia :)O blog está em destaque na homepage dos ...

  • M.E.C.

    Olá! Que bom - toda a divulgação é uma ajudinha......